Visão Ampliada sobre Indivíduos, Grupos e Times

Crescemos como indivíduos à medida que refletimos sobre nossas experiências e vivencias e seus impactos sobre as outras pessoas. E ao interagirmos com outros indivíduos lidamos com situações de confronto ou mesmo de cooperação, defrontarmo-nos com nossos limites, capacidades e necessidades. Nessas interações emergem múltiplas de possibilidades e, a mais impactante é a compreensão de que estamos espelhando o outro, revelando o que geralmente me incomoda ou agrada. 

Será que há exatamente aí uma oportunidade autodesenvolvimento? Os encontros podem se tornar a mais significativa fonte para uma saudável percepção sobre si mesmo.

Ao estudarmos a alma chegamos a uma imagem multifacetada, tal como um diamante lapidado. Assim, uma alma pode entrar em relação com outras almas, harmonizando suas faces ou arranhando-se nos seus vértices. Quando a alma se coloca em movimento entre almas é que surgem os sentimentos mais primários, os quais conhecemos como simpatia ou antipatia. Esses sentimentos emergem instantaneamente, e podem ir se dissipando à medida que convivemos e experimentamos algumas experiências com a outra pessoa. É um fenômeno que se repete a cada novo encontro. 

Então, o ato de encontrar o outro tem algo como uma qualidade de ir contra, no sentido de perpassar, atravessar o outro. A alma move-se nessa dualidade entre simpatias e antipatias; entretanto, é somente ao acessarmos o Eu que podemos elaborar e transformar esses sentimentos primários em empatia. Empatia, portanto, não é algo dado a priori, ela é uma conquista ponderada pela consciência. Sentimento, pensamento e vontade são capacidades da alma que precisam ser trabalhadas para que se possa nutrir um senso de coerência na vida.

O ser humano é o único ser capaz de refletir sobre as consequências dos seus atos e decidir tornar-se melhor a cada nova experiência. Neste ponto o pensar, sentir e querer se alinham. Na solidão, somos poupados de ter que nos deparar com experiências que nos coloquem em xeque. Mas nos relacionamentos, podemos chegar ao ponto de perguntar, quem sou eu nessa existência? Quando essa questão surge, a partir das ponderações do Pensar, perpassadas pelo Sentir e Querer entramos num fluxo anímico, que ocorre a cada nova experiência em fração de segundos. Daí pode resultar que as nossas ações no mundo, sejam na direção da liberdade genuína. Apenas em um gesto, uma decisão ou em uma ação verdadeiramente livre pode surgir o amor.

No pensar, lucidez
No sentir, afeição
No querer, ponderação…

(Rudolf Steiner)

Bernard Lievegoed, em seu livro “Rumo ao século XXI”, aponta para o valor do trabalho em grupo; ele ressalta que esse pode ser o caminho de desenvolvimento que leva o homem a revelar a sua verdadeira tarefa e a clareza do espaço a ser ocupado por ele no mundo. 

A atividade em grupo pode se transformar em um campo fértil para autênticos encontros humanos e chegarmos à compreensão do próprio EU, que só é possível através da vivencia do Eu do outro. Compreende-se a partir disso que a comunidade atua como um espelho da alma humana e a alma humana está espelhada na comunidade. 

O grupo instiga o ser humano a se confrontar com seus valores e por meio desse confronto, mudar, transformar, crescer, desenvolver e ponderar sobre aquilo “que ele é com aquilo que quer e pode ser”. Se me deparo com algo que me agrada ou desagrada, esse algo pode indicar o que devo modificar em mim. 

Através do trabalho de Lievegoed citado acima, encontramos a distinção de três qualidades que podem viver nos grupos. 

O primeiro, ele denomina de Grupo de Estudos. O grupo está conectado às forças do Pensar e se reúne para aprender, para adquirir conceitos sobre um determinado tema. A maneira como eu processo conhecimento pode ser diferente do outro, isto pode levar ao confronto das ideias e dar a chance de conhecer o outro como ser humano. Há uma força de natureza espiritual que surge na relação quando nos esforçamos para ir em direção ao outro.

Há o risco da polarização quando uma individualidade se sobrepõe a outra. Daí, surgem conflitos alimentados pelo egoísmo no âmbito do conhecimento. Mas quando nos permitimos ouvir além das palavras e abrirmo-nos para outras perspectivas, surge uma certa moralidade, e o grupo coloca-se a serviço do conhecimento de uma forma altruísta.

“Nenhuma esquadra navega mais rápido do que o mais lento de seus navios”

(ditado popular) 

O segundo tipo de grupo assinalado por Lievegoed é o Grupo Social. De certa forma, este traz forte influência cultural da família e/ou povo. Nele carregamos os nossos hábitos; é onde os padrões se acentuam e revelamos mais facilmente as nossas sombras ou sósias. Sentimos falta quando estamos afastados por longos períodos, retornamos para reconectar com a nossas origens e biografia, ou mesmo nossa missão de vida. 

Existem aí padrões, como uma assinatura social. É a maneira como ocupo os espaços no meio ambiente social ou como sou percebido por ele! É no grupo social que mais percebemos o outro em nós. 

Existem exercícios que possibilitam encontrar o equilíbrio da alma, em silêncio, e dar um passo na direção do outro para conhece-lo através das nossas histórias. Este caminho possui a qualidade que nos eleva à inspiração que ilumina a razão da nossa existência. 

O terceiro tipo é o Grupo de Trabalho, dentre as três qualidades propostas para os grupos, este é o mais abrangente e revelador da essência da nossa individualidade, pois reúne em si os três matizes dos grupos em um só. 

Para que um grupo possa realizar uma iniciativa apropriadamente é preciso, antes de tudo, que haja uma autenticidade, que os membros estejam todos “afinados” entre si. Para tal, precisa trabalhar certas habilidades sociais, e vontade de aprender mesmo tempo. Deve existir um objetivo a ser realizado no mundo. 

Esse tipo de grupo aponta para habilidades que cada vez mais serão exigidas no futuro. Há uma intencionalidade clara que perpassa o grupo, tem foco e poder de criação.  Há a oportunidade para se realizar o bem e experimentar a espaço de liberdade; o verdadeiro conhecimento é obtido no fazer. O grupo desenvolve uma qualidade de intuição, que está ligada às forças de um ideal de futuro. 

Para a prática do trabalho em grupo, devemos perguntar: qual o objetivo do grupo? O que estamos fazendo, na verdade? As expectativas de todos estão alinhadas? 

“Individualmente, somos gotas isoladas; juntos, formamos um oceano”.

(Ryunosuke Satoro)

Um grupo pode se metamorfosear em um time quando todos estão comprometidos. Quando ha uma entrega, um propósito comum, embora possam existir diferenças individuais; o time em si se torna uma “individualidade” onde cada membro tem o seu papel.

Um time funcional – de qualidade ocorre quando os membros estão prontos para assumir riscos, para lidar com conflitos e, simultaneamente, sustentar o diálogo corajosamente. Antes, porém, acordos precisam ser feitos, para uma cultura de confiança reciproca e as entregas acordadas possam acontecer.

Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas trás sempre a lembrança da expressão: “um por todos e todos por um” – a frase simboliza a essência do trabalho em time, representa um acordo indiscutível. Consciente ou inconscientemente havia uma cooperação inquestionável entre eles, razão do sucesso. 

O que diferencia Grupo de um Time? Os membros de um time possuem maior interdependência e sempre em favor do objetivo comum, até finalizar a tarefa pela qual todos se consideram mutuamente responsáveis. As pessoas de um time experimentam uma necessidade de troca, mas ao mesmo tempo, preservam suas individualidades, reconhecendo a expertise um do outro. Em contraste com um mero grupo, os times frequentemente identificam metas e abordagens comuns e, em vez de delegarem a um líder que as defina, o time é soberano e capaz de chegar a acordos sobre os papeis e responsabilidades, conscientes de que todos serão afetados do mesmo modo, e não de maneira isolada.

O todo é mais do que a soma de suas partes. 
Assim como cada parte contém em si o todo. 

A consciência da interdependência mútua, ligados a uma entrega comum é que diferencia grupos de times. Um time, representa mais que apenas a soma de seus vários integrantes; trata-se de um lugar em que as pessoas geralmente se encontram na soma das diferenças e níveis.

 O time torna-se um Ser além dos indivíduos

Ajudar um Grupo de Trabalho apoiando que cada um reconheça a sua própria potencialidade e a do outro, alimentar a confiança mutua, e motivar para uma entrega dedicada alinhada com um propósito, é a verdadeira tarefa de um Team Coach. A medida que os membros interagem entre si e compreendem o sistema é gerado um campo morfogênico onde as virtudes de time afloram. 

Um estado de espírito aberto prepara o Coach para perceber o campo e renunciar aos modelos cognitivos habituais, Deixa de apenas fazer relações baseadas em conhecimento cristalizado. O Coach abre-se para receber o que está querendo emergir do grupo e devolve para que se apropriem dessa nova consciência. Assim, intuitivamente vê o movimento nascer desde o centro para a periferia e vice versa.  Conflitos, padrões e crenças se diluem. E o próprio time assume o controle do curso da tarefa.

Concedei-me, Senhor, a serenidade para aceitar as coisas que não posso mudar; a coragem para mudar as que sou capaz; e a sabedoria para discernir sobre ambas.

 (Reinhold Niebuhr)

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